TEXTO DE CATARINA FRAGA
Albert Eckhout: reflexões do contexto
Albert Eckhout: reflexões do contexto
histórico na perspectiva da Ciência
Catarina Fernandes de Oliveira Fraga
Mestre em Educação, Leciona Didática, Metodologia e Prática de
Ensino de Ciências na UFRPE.
Brasil até 1644. Pintor e naturalista holandês, convidado pelo Príncipe
João Maurício de Nassau, retratou os tipos étnicos, a fauna e a flora.
Desse modo registrava com detalhamento o desconhecido do Novo
Mundo para o Velho Mundo.
Na perspectiva da Ciência faz-se necessário refletir como se apresentava
a natureza do conhecimento científico no século XVII. Perceber tais
relações é relevante pois as concepções sobre a natureza do
conhecimento científico envolvem noções quanto ao modo como se
alcança o conhecimento em qualquer campo do saber.
Os naturalistas se dedicam a estudar duas ordens de fenômenos, os
físicos e os químicos, constituindo ao que chamamos hoje de Ciências
físicas e biológicas. Os primeiros biólogos foram os médicos: os présocráticos
(Empédocles ou Anaxágoras) e os pós-socráticos (Aristóteles).
Buscavam todos eles a fonte ou a origem da vida. Aristóteles interessouse
pelo fenômeno da reprodução. Do século XVII até a primeira metade
do século XX, predominou na biologia a investigação fisiológica.
Historicamente, as principais concepções de Ciência são três:
racionalista, cujo modelo de objetividade é a matemática; o empirista, que
toma o modelo de objetividade da medicina grega e da história natural do
século XVII; e o construtivista cujo modelo de objetividade advém da idéia
de razão como conhecimento aproximativo. (Chauí, 1994)
A concepção racionalista, predominou desde os gregos até o final do
século XVII (a ciência é capaz de provar tudo e tomada como verdade). A
concepção empirista, ganha espaço desde a medicina grega e Aristóteles
ao término do século XIX (com os mesmos pressupostos, focava métodos
experimentais rigorosos). Enquanto a concepção racionalista era
hipotético-dedutiva a empirista era hipotético-indutiva. Enquanto a
primeira definia o objeto e suas leis e dessa deduzia propriedades, a
segunda apresentava suposições sobre o objeto, realizava observações e
experimentos e chegava a definição dos fatos.
Na concepção construtivista, “iniciada em nosso século” o conhecimento
não se encontra nem em nós, nem fora de nós, mas é construído,
progressivamente, pelas interações que estabelecemos. As teorias
(nossos conhecimentos, memórias e crenças) precedem observações
influenciando-as. Nesta perspectiva, a ciência é vista como um processo
dinâmico e sujeito a mudanças”. (Borges, 1996:17)
Hoje, por maiores que sejam as divergências, a maioria dos filósofos das
ciências, apresentam uma visão construtivista.
Conforme a história da filosofia da Ciência (Losse, 1979), o século em que
viveu Albert Eckhout, é marcado pelo ataque à visão Aristotélica. Destacase
Francis Bacon (1561-1626), Galileu Galilei (1564-1642) e René
Descartes (1596-1650).
Na tentativa de perceber a perspectiva do naturalista holandês daquele
período, através dos historiadores da biologia, observa-se que com
dedicação a descoberta dos precursores da ciência da ecologia,
consideram que a medicina, a botânica medicinal, a “história natural” se
situam no campo coberto por um pensamento aristotélico cristalizado,
cujo finalismo e providencialismo não favorecem o questionamento das
relações entre os seres vivos e entre os seres vivos e meios
externos.
Tais reflexos incidem neste período e em seguida (Lineé, século XVIII) o
pensamento lineano funcionou como ideologia de legitimação da ação
destrutiva dos homens e como revelador da fragilidade dos equilíbrios
naturais. Ideologia de legitimação, quando Lineé postula que: “(...) no
governo da natureza, o homem é o mais alto servidor (...)” e que assim
“(...) a natureza inteira tende a prover a felicidade do homem, cuja
autoridade se estende por toda a terra e que pode se apropriar de todo o
seu produto”. Citava C. Lineé em L’ equilibre de la nature (apud Pascal,
1990:7).
Conforme Pascal, a história da ecologia simplesmente não é conhecida.
Sendo o seu trabalho o primeiro no gênero “(não se trata da história de
uma subdisciplina da ecologia, nem da história de um único conceito
”central” desse ramo da biologia, nem da apresentação de seu
desenvolvimento numa dada área cultural, mas de uma história da
ecologia no sentido amplo do termo)”.
O século XVII, ainda influenciado pelos conceitos anteriores, na visão
eckhoutiana, ao retratar índios, negros, mestiços, mamelucos, fauna e
flora são apresentados pousando na terra e relacionados com os fatores
bióticos a abióticos.
Trata-se bem mais do que mero registro “Eles são retratados pousando
na terra para fazer ver aos sujeitos de outras terras, de usos e costumes
diversos justamente a relatividade de seus modus vivendi (grifo meu)”.
Oliveira (ANPAP, 2001:32)
Como se pode observar o conhecimento e suas manifestações é
apresentado e construído num desenvolvimento intercalado por crises,
rupturas e reestruturações, num processo permanente de mudanças.
Desse modo, os atores históricos crescem e as ciências se desenvolvem.
Portanto, compete a cada ator nesta breve reflexão, encontrar a própria
resposta e novos questionamentos sobre a obra do pintor e naturalista
Albert Eckhout.
Bibliografia
Campus, 1990.
BORGES, Regina M. Rabello. Em debate: cientificidade e educação em
ciências. Porto Alegre: SE/CECIRS, 1996.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 1994.
LOSSE, John. Introdução histórica à filosofia da ciência; Trad. Borisas
Cimbleris – Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade
de São Paulo, 1979.
OLIVEIRA, Ana Cláudia Mei Alves de. Associação Nacional de Pesquisadores
em Artes Plásticas – ANPAP – Comunicações: Centro de Artes e Comunicação.
Dpto. de teoria da arte e expressão artística: UFPE – Recife, 2001.
Bem legal o site gostei !!
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